Combatentes montados em camelos reuniram algumas centenas de homens perto da cidade sudanesa de Al-Fashir no fim de semana e os levaram para uma área reservada, gritando insultos racistas antes de começarem a atirar, segundo um homem que disse estar entre eles.
Um dos sequestradores o reconheceu de seus tempos de escola e o deixou fugir, disse o homem, Alkheir Ismail, em uma entrevista em vídeo realizada por um jornalista local na cidade vizinha de Tawila, na região de Darfur, no oeste do país. “Ele disse a eles: ‘Não o matem'”, disse Ismail. “Mesmo depois de terem matado todos os outros, meus amigos e todos os outros.”
Ele disse que estava levando comida para parentes que ainda estavam na cidade quando ela foi tomada pelas Forças de Apoio Rápido (RSF) no domingo (25) e, como os outros detidos, estava desarmado. A agência de notícias Reuters não conseguiu verificar seu relato.
Ismail foi uma das quatro testemunhas e seis trabalhadores humanitários entrevistados pela agência, que também relataram que pessoas fugindo de Al-Fashir foram reunidas em aldeias próximas, com homens separados de mulheres e levados embora. Em um relato anterior, uma das testemunhas disse que tiros foram ouvidos em seguida.
Ativistas e analistas há muito alertam para a possibilidade de assassinatos por vingança com base em etnia pelas RSF, caso estas tomassem o controle de Al-Fashir –cidade que foi o último reduto do Exército sudanês na região de Darfur.
O escritório de direitos humanos da ONU divulgou outros relatos nesta sexta-feira, estimando que centenas de civis e combatentes desarmados podem ter sido assassinatos. Tais eventos podem ser considerados crimes de guerra. As RSF, cuja vitória em Al-Fashir representa um marco na guerra civil de dois anos e meio no Sudão, negaram tais abusos, ao afirmar que os relatos foram inventados por seus inimigos.
Outras testemunhas ouvidas pelo jornal britânico The Guardian descreveram uma série de assassinatos contra civis deitados em suas camas, em unidades de saúde e seus arredores. Nawal Khalil, uma enfermeira voluntária, afirmou que as RSF “mataram seis soldados e civis feridos em suas camas”, inclusive mulheres. “Não sei o que aconteceu com meus outros pacientes. Tive que correr quando invadiram o hospital”, relatou.
A Reuters verificou pelo menos três vídeos publicados nas redes sociais mostrando homens com uniformes da milícia atirando em prisioneiros desarmados e uma dúzia de outros mostrando grupos de corpos após aparentes tiroteios.
Um comandante de alto escalão das RSF classificou os relatos de “exagero da mídia”, do Exército e de seus combatentes aliados “para encobrir sua derrota e a perda de Al-Fashir”.
A liderança do grupo paramilitar ordenou investigações sobre quaisquer violações cometidas por indivíduos das RSF e vários foram presos, disse ele, acrescentando que o grupo ajudou as pessoas a deixar a cidade e pediu que organizações humanitárias auxiliassem aqueles que permaneceram.
Segundo ele, soldados e combatentes que se faziam passar por civis foram levados para interrogatório. “Não houve mortes como dizem as acusações”, disse o comandante à Reuters em resposta a um pedido de comentário.
A captura de Al-Fashir pelas RSF consolida a divisão geográfica de um país já reduzido pela independência do Sudão do Sul em 2011, após décadas de guerra civil. Em um discurso na noite de quarta-feira (29), o chefe da milícia, Mohamed Hamdan Dagalo, conclamou seus combatentes a protegerem os civis e afirmou que as violações serão processadas. Ele pareceu reconhecer as notícias sobre detenções ao ordenar a libertação de alguns presos.
A maioria dos combatentes que resistiam ao avanço das RSF em Al-Fashir pertencia ao grupo étnico Zaghawa, cuja inimizade com os combatentes das forças, em sua maioria árabes, remonta ao início dos anos 2000, quando, como milícias Janjaweed, foram acusados de atrocidades em Darfur.
Alex de Waal, especialista em genocídio, afirmou que os atos relatados das RSF em Al-Fashir eram “muito semelhantes ao que fizeram em Geneina e em outros lugares”, referindo-se a outra cidade de Darfur que as RSF tomaram durante os estágios iniciais da guerra mais recente, bem como no conflito do início dos anos 2000.
Os EUA acusaram o grupo paramilitar de genocídio em Geneina e o ataque está sendo investigado pelo Tribunal Penal Internacional. O Exército sudanês e outros observadores acusam os Emirados Árabes Unidos de apoiar as Forças de Apoio Rápido —o país nega.
Em outro depoimento obtido e verificado pela Reuters, Tahani Hassan, ex-faxineira de hospital, disse que fugiu para Tawila na madrugada de domingo, após seu cunhado e seu tio terem sido mortos por balas perdidas.
No caminho, ela e sua família foram abordadas por três homens com uniformes das RSF, que os revistaram, espancaram e insultaram. “Eles nos bateram muito. Jogaram nossas roupas no chão. Até eu, sendo mulher, fui revistada”, disse ela, acrescentando que sua comida e água também foram jogadas no chão.



