É clichê, mas é verdade —brasileiro não perde uma chance de carnavalizar. Não seria diferente na noite em que “Vale Tudo” chega ao fim, ainda mais numa sexta-feira. Bares, baladas e até saunas gays pelo Brasil afora convidaram o público a assistir ao capítulo final do remake, que enfim trouxe a resposta de que Marco Aurélio tentou matar Odete Roitman, mas ela sobreviveu.
Não seria diferente em Belo Horizonte, a capital dos botecos, que concentra a maior proporção de bares por habitante entre todas as capitais do país —título que a cidade ostenta numa lei municipal.
Acontece que a capital mineira não deu boa audiência ao folhetim. Pelo contrário. Levantamento do fim de setembro do Painel Nacional de Televisão, o PNT, mostrou que Belo Horizonte ocupava a antepenúltima posição no ranking de audiência da novela pelas 15 cidades aferidas, com 22 pontos. Para efeito de comparação, Belém, que ocupava o topo da lista, tinha 34 pontos.
A audiência da capital mineira subiu nas últimas semanas de exibição, chegando a 26 pontos, mas talvez a principal maneira de analisar a repercussão da nova versão de “Vale Tudo” não esteja na frieza dos dados.
“Terra e Paixão“, em janeiro do ano passado, registrou 32 pontos de audiência em seu capítulo final. Mas a novela, escrita por Walcyr Carrasco, não movimentou as mesas dos botecos como “Vale Tudo”, que também foi um sucesso nas redes sociais —de 6 de outubro até tarde desta sexta-feira, dia 17, houve 1.900 menções à personagem Odete Roitman nas redes sociais por hora, segundo o instituto de pesquisa Quaest.
O remake está atrás de fenômenos como o filme “Ainda Estou Aqui“, vencedor do primeiro Oscar do Brasil, que teve 4.600 menções por hora entre janeiro e março deste ano, e do show de Lady Gaga na praia de Copacabana, com 5.100, entre o fim de abril e o início de maio.
Mas talvez isso também importe menos do que se pensa. Uma evidência disso é a pesquisa que o Datafolha fez no mês passado a respeito da novela. O estudo mostrou que, ao contrário da maioria dos comentários nas redes sociais, o público em sua maioria aprovou o remake de Manuela Dias, visto por um em cada três brasileiros.
Nas ruas, por volta das 21h30, milhares se reuniram próximo a televisores e telões nos bares. Na galeria São Vicente, no centro de Belo Horizonte, centenas de pessoas se reuniram no Pirex, que exibiu a novela e ofereceu pipoca de graça ao público e três cervejas pelo preço de duas, além de drinques temáticos como o Mambo Caliente, uma batidinha de maracujá e coco com licor de cassis, lembrando um bordão da personagem Heleninha, que enfrentou o vício em álcool.
O clima era parecido com o do fim de uma Copa do Mundo —uma com o Brasil na disputa. É que a novela virou um evento, algo parecido com o que aconteceu com o filme “Barbie“, há pouco mais de dois anos, que levou à viralização do cor-de-rosa tanto no mundo virtual como no de carne e osso, ou com o disco “Brat“, da britânica Charli XCX, que viralizou de forma parecida, mas com o verde, no ano passado.
Hoje, no Brasil, parecia que nada mais importava do que o fim de “Vale Tudo”. Nos intervalos da novela, conforme a trama avançava, os garçons do Pirex estimulavam o debate entre os clientes sobre quem teria matado Odete Roitman. Ainda que um bolão tenha premiado aqueles que acertaram o nome do assassino com R$ 1.000 dividido entre os vencedores, a verdade é que a resposta pouco importava.
Ninguém torcia por um personagem ou por outro, muito menos se prestava a discutir se os rumos que a trajetória de cada um dos heróis e vilões estava tomando faziam sentido —alvo de muito questionamento dos críticos e dos noveleiros nas redes sociais. Mas ai de quem entrasse na frente do projetor —muitos, é claro, para tirar fotos e fazer vídeos para o Instagram e mostrar que participava do evento.
Muitos confessaram que não assistiram a todos os 173 capítulos da novela. Houve quem contou não ter assistido a nenhum deles, na verdade. Mas todos sabiam, independentemente se estavam vivos no longínquo 1988 em que a novela original foi exibida, não só quem era Odete Roitman como também Maria de Fátima, a blogueira pilantra da novela, sua mãe, a super-honesta Raquel, e todos os demais personagens da trama, alegorias do Brasil e de suas contradições.
É uma evidência de que, hoje, não se assiste mais a uma novela apenas ligando a televisão. É possível assistir a um folhetim por meio de recortes das cenas mais importantes, sintetizadas em vídeos verticais cheios de emojis e legendas cômicas, perfeitos para os celulares e algo que a própria Globo vem publicando em suas redes sociais, assim como outras páginas de cultura pop e de humor.
Como não é possível avaliar uma novela apenas por clipes curtos, para esses espectadores, é claro, também não parecia importar se o remake foi bem feito. Todos pareciam estar reunidos no bar pela festa.
E essa festa vendeu como nunca —se para o bar não havia nem uma mesa sequer disponível, para a Globo foram 26 marcas pagando caro por comerciais nos intervalos do último capítulo, embora o remake tenha perdido quase metade de sua audiência nos números do Ibope em relação à versão original. Nem a crise do metanol parece ter resistido à morte de Odete Roitman.



