Há uns anos entrei numa livraria nos Estados Unidos e vi exposto um livro de um autor britânico cujo título era: “A União Europeia: Um Obituário”. Um pouco como o protagonista do filme “O Sexto Sentido”, a ideia é que a União Europeia já morreu, mas não sabe disso.
Está sempre na moda ser pessimista sobre a União Europeia. Passei muitos anos lendo sobre como o euro colapsaria a qualquer momento e como os Estados-membros regressariam às suas moedas originais. Depois veio o momento do brexit em 2016 e as histórias sobre como a saída do Reino Unido seria apenas a primeira de uma debandada geral.
A opinião minoritária, chata, não na moda era que entrar e sair do euro, não seria um fenômeno simétrico como o abrir e o fechar de uma porta, mas antes assimétrico, como tentar reconstituir os ovos depois de fazer uma omelete. Da mesma forma, fui dizendo que o brexit era mais um problema do Reino Unido do que um problema da União Europeia e hoje, todos os estudos econômicos sérios provam que os britânicos sacrificaram crescimento econômico real em troco de soberania retórica.
Chegados ao presente, vivemos ainda sob os ecos da Estratégia Nacional de Segurança de Donald Trump que, para a Europa, estabelece um plano de mobilização de partidos e movimentos de extrema direita para dividir a UE (ao passo que propõe a reintrodução da Doutrina Monroe para os países das Américas).
Numa entrevista subsequente, Trump insultou os líderes europeus, que considerou “fracos”, em linha com a linguagem pouco mais polida dos seus intelectuais, que dizem que a Europa está a passar por um “apagão civilizacional”.
É agora o fim? Mais devagar. A resposta minoritária, chata e fora de moda é que a União Europeia em geral estabelece uma meta burocrática que demora muito tempo a atingir mas de que não se desvia muito. A razão é também simples: é mais fácil para os Estados-membros manterem-se juntos e tentar manter relevância agregada do que separarem-se e garantirem a irrelevância.
E assim é que, embora os documentos que venham da Casa Branca sejam mais tronitruantes e facilmente garantam manchetes, esta semana a União Europeia acabou encontrando uma solução para o financiamento da Ucrânia a média prazo utilizando os ativos soberanos russo depositados em jurisdição europeia.
Solução essa que tem tanto de burocrático quanto de engenhoso: os fundos russos não são confiscados, mas “imobilizados indefinidamente”, e a União Europeia contrai um empréstimo para financiar a Ucrânia que esta só terá de devolver se a Rússia pagar reparações de guerra. Para aprovar esse esquema foi preciso usar um artigo dos tratados reservado para situações de emergência que permitiu contornar o veto húngaro. Nada disto é muito excitante, mas tem a vantagem de estar feito.
Nas restantes tarefas da semana está a votação do acordo de livre-comércio com o Mercosul, que Estados-membros como a França procuram bloquear ou pelo menos adiar. Mas a escolha é clara: ou a UE demonstra agilidade para fechar esse acordo com seus novos parceiros sul-americanos, criando um mercado de mais de 700 milhões de consumidores, ou o último a rir será Trump.
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