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Cormac McCarthy deixa banalidades grandiosas em ‘Suttree’ – 08/12/2025 – Ilustrada

Tem uma entrevista de Paul Thomas Anderson, da época em que o sujeito era moleque e havia acabado de dirigir “Magnólia”, em que ele justifica a duração do filme, três horas e oito minutos, de um jeito interessante.

Até então, filmes de três horas eram reservadas apenas a longas de guerra ou aos que abordavam tópicos sociais seriões. Para o diretor, entretanto, o dia a dia dos indivíduos comuns sempre expressou algo de grandioso. Bastava ter olhos para enxergar e a coragem de procurar no lugar certo.

Foi nesse espírito que Cormac McCarthy escreveu “Suttree”, seu quarto livro, um romance de quase 600 páginas, publicado nos Estados Unidos em 1979 e agora pela primeira vez chega ao Brasil, pela Alfaguara.

A história é simples. Cornelius Suttree rompe com a família afluente porque decide viver como um pescador na cidade de Knoxville, junto com bêbados e outros desafortunados.

“Suttree” é muitas vezes comparado a “Ulysses“, de James Joyce. McCarthy teria feito com Knoxville aquilo que o irlandês fez com Dublin. Nos dois livros, há pluralidade de vozes e a mistura de coloquialismo, vulgaridade, erudição e mitologia. Em ambos os romances, piadas de pum e filosofia escolástica coexistem.

Ao longo de sua jornada, Cornelius Suttree conhece Gene Harrogate, um sujeito simplório, trambiqueiro inveterado, mas puro de coração, até onde um sujeito que transa com melancias pode ser puro de coração. Em meio à desolação de Knoxville, os dois se tornam amigos.

Enquanto o primeiro, de temperamento reflexivo e introvertido, desenvolve uma relação de irmão mais velho com o segundo, Harrogate é o alívio cômico no ambiente soturno criado por McCarthy.

A amizade de ambos é uma versão mais “chave de cadeia”, mas não menos atrapalhada e divertida, da parceria de Huckleberry Finn e Tom Sawyer, ou de César e Olavo em “Vale Tudo“.

O universo literário de McCarthy é cruel e opaco. Não há Deus, ou se Ele existe não é a versão misericordiosa do Novo Testamento, mas a vingativa e violenta do Antigo.

No entanto, “Suttree” se destaca em sua obra: há um humor quase picaresco e os personagens são tratados com ternura e um humanismo compassivo.

A trajetória do protagonista é, na forma e no tema, uma narrativa de ascese. Acontece que “Suttree” não é nenhum santo. Ao contrário, é um pecador, confesso que abraça o mundo do jeito que ele é: profano e imperfeito. Seu percurso é uma via-crúcis secularizada. Há sofrimento sacrificial, ainda que a redenção nunca chegue.

McCarthy emprega sua linguagem repleta de anacronismos linguísticos e grandiloquência bíblica ao narrar eventos ordinários. Sua prosa empresta grandiosidade existencial àquilo que em outras mãos seria uma sucessão de banalidades cotidianas.

A tradução de Daniel Galera é preciosa: os arcaísmos e polissíndetos, as sintaxes rebuscadas, enfim, toda a sensação estética da dicção original está presente.

James Wood, crítico da revista The New Yorker, lembrava que o excesso de pompa é um jogo arriscado. Quando McCarthy acerta, é genial. Mas quando erra, soa como um pastiche teatral afetado. Como o crítico dizia: “O problema não é o melodrama, mas a imprecisão e às vezes até o nonsense”.

Considere, por exemplo, essa descrição de uma cena de orgasmo em “Suttree”: “(…) e como os olhos dela reviraram como os de um mendigo turco deixando somente o branco azulado rutilando embaixo das pálpebras entreabertas (…)”. Se já houvesse o Bad Sex in Fiction Award em 1979, “Suttree” concorreria à medalha de ouro.

McCarthy é filho bastardo de Flannery O’Connor. Menos pelo estilo, mais pelo universo temático e pela metafísica católica. Embora se declarasse agnóstico, sua formação foi católica apostólica romana. Além disso, ambos se filiavam à tradição literária gótica sulista.

É conhecida a declaração de O’Connor sobre o sul dos Estados Unidos: “É mais fácil encontrar um anjo caminhando pela calçada do que um corretor de seguros”. Na Knoxville degradada e encantada de Cornelius Suttree, não é assim tão diferente.

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