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Coetzee sente a morte se aproximar no livro ‘O Polonês’ – 05/12/2025 – Ilustrada

Poucos motivos na ficção são mais comoventes —na acepção menos piegas do termo— do que a consciência da aproximação da velhice e da morte.

Críticos como Umberto Eco e Frank Kermode já argumentaram, inclusive, que o romance nasce, em boa medida, como estratégia para lidarmos com o fim ou darmos sentido a ele.

O romance —aliás, toda literatura— é também um comentário ora desencantado, ora mais confiante, sobre tradução. Mesmo antes de qualquer conversão de uma língua para outra, o texto literário é resultado da transfiguração da ideia para as palavras, e nesse exercício sempre se perde muito (numa perspectiva mais otimista, também se ganha um bocado: a criação de uma comunidade).

Velhice, morte e vicissitudes da tradução se encontram no romance mais recente —será o final?— de J.M. Coetzee, 85 anos, autor de uma das obras mais brilhantes, e comoventes, do nosso tempo.

O polonês, título e coprotagonista, é um velho pianista, intérprete “austero” do conterrâneo Fréderic Chopin. Em trajetória descendente, ele se apresenta em Barcelona e é recepcionado por uma espanhola de seus 40 anos, “altiva” e “gentil”, por quem se apaixona.

Witold e Beatriz, porém, não se edificam na página sem embaraço. Leitores de Coetzee vão reconhecer o exercício —visto, por exemplo, no início de “Elizabeth Costello”— no qual o narrador, um versão textual do próprio autor, nos diz da dificuldade de compor cenas e personagens. “A mulher é quem primeiro lhe causa problemas”, lemos na abertura. E na página seguinte: “O homem é mais complicado”.

Por que complicado? A forma exterior é simples: “setenta anos vigorosos”, “excêntrico no universo dos concertos”. No entanto, assim que “entra na luz” —podemos pensar: quando uma imagem mental se torna linguagem—, o polonês mostra uma “alma [que] nos parece particularmente seca e severa”, o que “pode significar certa aridez de seu temperamento”.

O restante do romance (uma breve novela, na verdade) se dedica a revelar o que há por baixo da aspereza. Vê-se a estratégia de fazer confluir, mas em tensão, forma e pensamento: o próprio texto de Coetzee é seco, severo, um tanto árido. Seriedade é uma palavra que o próprio autor já empregou para descrever seu estilo. O que essa forma produz, porém, é uma história delicada.

O enredo é simples: Beatriz leva Witold para jantar, com outros membros do círculo responsável pela apresentação do pianista em Barcelona. A conversa é afável, mas truncada pelo uso de um língua terceira, o inglês.

A tradução dobrada não é um elemento casual: ela introduz o tema da mediação virtualmente impossível entre os dois personagens, que tentarão se entender depois fisicamente —há uma cena inesquecível de encontro sexual— e, mais tarde, pela escrita.

Não se trata apenas de obstáculos de entendimento linguístico, tampouco de uma alegoria da incomunicabilidade humana, tema marcante da ficção do século passado. O que está em jogo aqui é algo menos angustiante e mais doce, ainda que triste: a aposta em algum tipo de encontro, embora precário.

Uma aposta que bancamos, aliás, a cada vez que lemos uma obra estrangeira traduzida —no caso de “O Polonês”, muito bem traduzida por José Rubens Siqueira.

Witold se apaixona, Beatriz se espanta com a entrega do pianista. A princípio o rejeita, mas, por motivos imprecisos —sua própria posição social supérflua, a distância do marido, a possibilidade de enxergar-se diferentemente, através de olhos devotos—, acaba por dar uma chance, com reservas, à relação.

É um encontro breve, mas com consequência duradouras. Talvez pareça simplório, na resenha de uma novela tão sofisticada, expressar pudor em revelar o que acontece ao final da narrativa. Banquemos o risco de dizer que spoilers podem, sim, afetar a leitura de uma obra como esta.

Vale, afinal, apostar na habilidade de Coetzee de, surpreendendo, nos comover ainda mais profundamente com seu tom sério e seus afetos profundos —intraduzíveis, mas traduzidos.

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