O secretário de Estado americano, Marco Rubio, ordenou que diplomatas dos Estados Unidos na Europa, Canadá, Austrália e Nova Zelândia pressionem seus respectivos governos anfitriões a restringir a imigração e apresentem relatórios caso os países demonstrem apoio excessivo aos imigrantes, segundo um documento enviado às embaixadas e consulados da nação norte-americana.
Rubio instruiu os diplomatas a enfatizarem os efeitos de atos criminosos cometidos por imigrantes para incentivar maiores restrições à entrada, de acordo com o documento —um telegrama diplomático datado de 21 de novembro. O texto foi obtido pelo jornal americano The New York Times.
Os diplomatas devem “engajar-se regularmente com os governos anfitriões e suas respectivas autoridades para expressar as preocupações dos EUA sobre crimes violentos associados a pessoas com histórico de migração” e “quaisquer violações de direitos humanos relacionadas”, diz o telegrama. Acrescenta ainda que esses episódios são “generalizados fatores de perturbação da coesão social e da segurança pública”.
Os diplomatas devem enviar relatórios sobre crimes ligados a imigrantes à sede do Departamento de Estado, bem como análises sobre como os governos anfitriões lidam com essas questões, incluindo “políticas que favorecem indevidamente os migrantes em detrimento das populações locais”.
O objetivo dessas ações é construir “o apoio do governo anfitrião e das partes interessadas para abordar e reformar as políticas relacionadas ao crime cometido por migrantes, defender a soberania nacional e garantir a segurança das comunidades locais”, diz o telegrama.
O governo de Donald Trump frequentemente usa o termo “soberania” para descrever seus esforços para que outros países permitam a entrada de menos cidadãos estrangeiros e endureçam suas fronteiras —mesmo enquanto tenta impor políticas a nações soberanas.
O presidente, seus principais assessores e muitos de seus apoiadores têm falado sobre o grande número de migrantes como um flagelo nos EUA e na Europa. Eles estão determinados a fazer com que os governos tomem medidas drásticas para limitar a imigração e aumentar as deportações, embora as estatísticas mostrem que a travessia irregular de fronteiras na Europa vem diminuindo há muitos meses e estava diminuindo nos EUA no final do governo do ex-presidente Joe Biden.
Em um discurso nas Nações Unidas em setembro, por exemplo, Trump denunciou a “agenda migratória globalista”. Stephen Miller, conselheiro político do republicano, e o vice-presidente J.D. Vance têm sido igualmente enfáticos. “Não podemos reconstruir a civilização ocidental, não podemos reconstruir os Estados Unidos da América ou a Europa, permitindo que milhões e milhões de imigrantes ilegais não verificados entrem em nosso país”, disse Vance em fevereiro.
Rubio, filho de imigrantes cubanos, mudou suas opiniões sobre a política de imigração durante seus 14 anos como senador republicano pela Flórida. Agora, ele e seu vice, Christopher Landau, pressionam o Departamento de Estado a implementar as posições linha-dura do governo Trump.
Uma das medidas que eles estão ajudando a implementar é a drástica redução promovida pelo governo no número de refugiados admitidos nos EUA, conforme noticiado inicialmente pelo The New York Times. A ação ocorre no momento em que muitas das atuais 7.500 vagas para refugiados são reservadas para sul-africanos brancos de origem africâner, que não sofrem perseguição generalizada.
O Departamento de Estado afirmou, em um comunicado oficial nas redes sociais na semana passada, que “a imigração em massa representa uma ameaça existencial à civilização ocidental e mina a estabilidade de importantes aliados dos EUA”.
O Departamento de Estado enviou o telegrama com instruções sobre diplomacia em imigração na noite da última quinta-feira (21). Mais cedo naquele dia, o órgão havia mandado um telegrama separado a diplomatas americanos informando-os de que casos de governos estrangeiros que apoiam a imigração ilegal ou em massa deveriam ser incluídos nos relatórios anuais de direitos humanos sobre os países, disseram dois funcionários do Departamento de Estado.
Um deles disse que o telegrama foi enviado às missões diplomáticas americanas em países que compartilham a “civilização ocidental” com os EUA e são aliados próximos. Telegramas sobre como lidar com os problemas de imigração na América Latina e em outras regiões serão enviados em breve às missões nesses países, afirmou.
O funcionário disse ainda que Trump apoia a imigração de trabalhadores “altamente qualificados”.
O documento lista 12 pontos de discussão que os diplomatas podem usar com os governos anfitriões e mais três específicos para países europeus.
Um deles afirma: “Encorajamos o seu governo a garantir que as políticas protejam os seus cidadãos dos impactos sociais negativos da migração em massa, incluindo o deslocamento, a agressão sexual e a quebra da lei e da ordem”.
Outro ponto diz: “Instamos à vigilância na salvaguarda da liberdade religiosa, particularmente contra a prevalência do islamismo radical entre certas populações migrantes, o que causou um aumento nos incidentes antissemitas e anticristãos em áreas com grande concentração de migrantes”.
O telegrama não apresenta quaisquer dados que sustentem essas afirmações, embora afirme que tais informações existem.
Muitas das afirmações da gestão Trump sobre imigrantes na Europa coincidem com a linguagem de partidos políticos de extrema-direita nesses países. A gestão acusa os governos europeus de tentar censurar discursos de grupos e indivíduos de extrema-direita sobre esses e outros temas semelhantes.
O Departamento de Estado instruiu os diplomatas que trabalham nos relatórios anuais de direitos humanos a documentar casos do tipo.



