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Democracia espanhola, 50 anos – 22/11/2025 – Sylvia Colombo

Cinquenta anos após a morte de Francisco Franco (1892-1975), a Espanha marca a data como celebração de sua democracia e, ao mesmo tempo, como alerta diante do crescimento da extrema direita no país.

Enquanto consolida políticas de memória para explicar o que foi o franquismo, a Espanha enfrenta um cenário político em que setores conservadores relativizam a ditadura e o Vox, terceiro partido mais votado do país, avança com um discurso nacionalista e centralizador.

O aniversário, assim, não é apenas retrospectivo: é um aviso de que consensos democráticos podem ser desmontados em meio à polarização atual, como vem ocorrendo em outras partes do mundo.

A ditadura começou com o golpe militar de 1936 e a vitória franquista em 1939, apoiada pela Alemanha nazista e pela Itália fascista. O regime combinou autoritarismo militar, nacional-catolicismo, partido único e repressão sistemática de opositores.

Seu objetivo era moldar uma Espanha homogênea, centralizada e disciplinada, com papel dominante do Exército, da Igreja e do Estado. O antigo Vale dos Caídos, construído com trabalho forçado de presos políticos, simbolizou o esforço de impor uma narrativa única de redenção nacional.

A violência continuou após o fim da guerra. Milhares foram mortos sem julgamento e estima-se que mais de cem mil mortos e desaparecidos sigam sem identificação plena. Catalães e bascos tiveram línguas proibidas, sindicatos foram reprimidos, a imprensa censurada e homossexuais, criminalizados.

Mulheres consideradas “desviadas” eram internadas em instituições de reeducação, e crianças eram retiradas de famílias rotuladas como inimigas do regime. Durante décadas, esses crimes permaneceram fora do debate público.

A transição após 1975 priorizou estabilidade. A lei de anistia de 1977 acelerou a redemocratização, mas consolidou o silêncio oficial sobre violações. O pacto do esquecimento garantiu governabilidade, porém retardou o reconhecimento das vítimas. O país conviveu com valas comuns e símbolos oficiais do ditador, cujo corpo permaneceu no Vale dos Caídos até 2019.

A virada ocorreu nos anos 2000, com leis de memória que determinaram retirada de homenagens ao franquismo, abertura de arquivos, financiamento de exumações e reconhecimento estatal das vítimas. O Vale foi renomeado Vale de Cuelgamuros e transformado em espaço de memória. Entre historiadores e movimentos civis, consolidou-se a ideia de que, sem verdade histórica, não há democracia sólida.

Esse consenso, porém, voltou a ser contestado. O Vox acusa as políticas de memória de reabrir feridas e trata o franquismo como disputa ideológica, não como violação sistemática de direitos. O partido defende centralização territorial, combate autonomias regionais e relativiza a violência estatal do passado. A direita tradicional, sob pressão, adota parte desse discurso ou evita confronto direto com ele.

O embate atual não é apenas sobre recordação, mas sobre os limites democráticos no presente. A memória tornou-se arena central da vida pública espanhola porque não se refere apenas ao que ocorreu, e sim ao que pode voltar a ocorrer sob outras formas. Cinquenta anos depois, a Espanha não celebra Franco; celebra ter sobrevivido a ele. O desafio é impedir que a história seja usada para legitimar novos autoritarismos.


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