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Jards Macalé, à Folha, escreveu sobre poesia e artistas – 18/11/2025 – Ilustrada

Jards Macalé, músico que marcou a MPB e artista multifacetado que morreu nesta segunda-feira (17) aos 82 anos, publicou diferentes textos e colunas nesta Folha durante a sua vida.

Do ofício dos poetas, passando por reflexões sobre dívidas internacionais e a Declaração dos Direitos Humanos e indo até a relação com artistas que o marcaram, como John Cage e Tom Jobim, confira alguns dos textos assinados por ele, marcados pela irreverência que o consagrou como artista.

7 de dezembro de 1982

E vale a pena ser poeta.

Precisamos ser todos adocicados. “Feminilizar” a vida, isto é, torná-la criativa, produtiva, a vida como mãe geradora de mais vida, fontes de prazer maior. O término da posse, o início da relação de troca das riquezas naturais: alegria, felicidade, prazer. O amor é a prova dos nove, A dor, os noves fora zero. A vida manda sinais. Abandonar os mitos e partir para a essência e coisa e tal.

Cada vez que leio os artigos de Paulo Francis aqui na Folha me vêm essas idéias românticas. O mundo parece que vai explodir a qualquer momento e me sinto despreparado para segurar o pepino do delírio de um incompetente cowboy hollywoodiano como Reagan, assim como o desequilíbrio geral que pulsa em todas as pontas desse planeta. Ainda mais morando no Brasil, zona da mata.

Quem sabe, “quando o mundo for reduzido a um único lenho negro para nossos quatro olhos pasmados, talvez eu já tenha encontrado uma praia para duas crianças fiéis ou uma casa musical para nossa clara amizade e talvez haja um pedaço de terra para um velho solitário calmo e belo rodeado por um lixo extraordinário, restos de uma civilização que um dia sonhou estar viva…..”, etecétera e tal?

Paixão e Música. Balbuciados os primeiros acordes a música flui naturalmente. A mão toca doce nos cabelos da Mulher. A mão toca doce nas cordas/ cabelos do instrumento. Música Mulher Música. Tomar a arte, o riso e o sorriso, a dor e a lágrima, o trabalho e o tempo. “O que amas de verdade permanece, o resto é escória/ O que amas de verdade não te será arrancado/ O que amas de verdade é tua herança verdadeira/ Mundo de quem, meu ou deles/ ou não é de ninguém?”

Encontrei esse fragmento de Ezra Pound no Canto 81. Musiquei, assim como encontrei musicados mais de setenta poemas em que trabalhei durante esses últimos quatro anos e os quais não registrei em fonogramas. Letras-poemas de Abel Silva, Fausto Nilo, Xico Chaves, José Carlos Capinan, Waly Salomão, Bertolt Brecht, Paulinho da Viola, Torquato Neto, Caetano Veloso, Gregório de Matos, Paulo Leminski, Jor- ge Amado, Jorge Mautner, Zé Ramalho, Mário e Oswald de Andrade, Regina Braga, Carlos Drummond, Vinícius de Moraes, Renaud, Ezra Pound (tradução de Augusto e Haroldo de Campos) e, nesse momento, Gilberto Vasconcellos: “Palmeiras Bravias”, “Fim de Botequim” e “Narizes D’Aço”, últimas composições.

Não viajando em discursos populistas ou experimentalismos culturalistas, procurando minha liberdade através da produção artística, tentando uma existência livre sem dogmatismos, me vejo cerceado atualmente pelas redes de produção, distribuição, locação e venda de meus produtos ou de mim mesmo, corpo no mercado.

A quem interessa essa produção? A quem interessa uma produção livre das amarras dos modismos, uma produção quente, não fria e calculista vinculada às regras do merchandising? Em um papo na revista Anima, editada em abril de 1976, reli meu diálogo com Paulinho da Viola.

Makalé: Eu queria saber o que a música lhe deu nesse tempo todo de dedicação, no sentido emocional, de

alegria, de gratificação e não gratificação.

Paulinho: O que a música me deu fof chance de abrir meu espírito pro mundo, foi pela música que eu abri minha sensibilidade para outras coisas. A música oferece isso. Eu nunca colocaria, por exemplo, que a música me deu ou não me deu dinheiro.

Makalé: Claro, a mim também a música me deu essa satisfação de me abrir para a vida, e o ato de tocar é gostoso, me dá uma grande satisfação.

Atenção: Fui à falência, devo aos bancos e, se complicar muito, deito no banco de praça mais próximo só pra curtir, morenando ao sol, se não chover. Gastei meus últimos tostões pagando conta do telefone que utilizei para ajudar a eleger a atual chapa vencedora do Sindicato dos Músicos do Rio de Janeiro.

Como na segunda chamada ainda não havia quórum, na terceira peguei a lista dos sindicalizados no sindicato (e seus respectivos nú- meros de telefones) e danel a telefonar pra todo mundo, Impulsos excedentes. Traços típicos de uma classe. Hoje me sinto como um dos frutos mais saudáveis de uma árvore em extinção. Canta Brasil. Vale a pena ser Poeta.

1º de novembro de 1981

O país dos 70 milhões de dólares

10/1981. Mudo a estação de TV e vejo, ouço a entrevista de Ziraldo com Hélio Fernandes, que aparece no aparelho depois de mais de uma década de proibição nos vídeos brasileiros. Hélio falava que a gente não devia pagar nossa Divida Externa. O negócio é exportar. Resta escolher exportar o quê, Não disse…

Mas eu sei. Há muito alimento essa ideia. Pagar para quê? Num país de miseráveis, onde em 1984 seremos mais ou menos 170 milhões de gentes, cada um de nós deverá, no mínimo, mil dólares aos bancos internacionais. É correto que, por erros de uma politica econômica do passado, nossos filhos do futuro nasçam devendo mil dólares cada? Vendemos nossa alma ao Diabo Estrangeiro. Ejaculação precoce.

04/1973. A Philips (atual PolyGram), através do seu então gerente geral no Brasil André Midani (atualmente na Warner Bros. do Brasil), começava a me botar pra fora da empresa. Ainda tentava um último trunfo: trocar a rescisão de meu contrato pela gravação da trilha sonora do filme “O Amuleto de Ogum” que estava realizando com Nelson Pereira dos Santos.

Eu e Nelson sabiamos que, tanto no Brasil como no Exterior, esse registro fonográfico seria importantíssimo. Não deu certo. Fiz jogo duro e não rescindi o contrato por livre e espontânea vontade. Resolvi matar Midani simbolicamente. Convidei-o a participar do filme, ele fez o papel de presidente da Cruz Vermelha Internacional que cai numa emboscada no elevador do Edifício Central do Rio de Janeiro.

Tipo Mariel, só que por engano. O jagunço, contratado por um grande da contravenção, acaba com ele no interior do elevador enquanto assovia a música de Zé Kéti “Voz do Morro”. Rio em 40 Graus.

12/1973. 25.º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, Junto-me à ONU e produzo e dirijo o Show “Direitos Humanos no Banquete dos Mendigos”. Convido alguns colegas: Paulinho da Viola, Jorge Mautner, Chico Buarque, MPB4, Luiz Melodia, Milton Nascimento, Dominguinhos, Gal Costa, Luis Gonzaga Jr., Johnny Alf e os músicos Copinha, Paulo e Cláudio Guimarães, Robertinho e Silva, Wagner Tiso, Luis Alves, Mauricio Maestro, Danilo Caimi, entre outros que agora não recordo.

O Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM) é cedido para o evento por Heloisa Lustosa, filha de Pedro Aleixo, então diretora do MAM e faz-se uma denúncia da situação da música e do músico Brasileiro. São lidos alguns artigos da Declaração dos Direitos Humanos. Piada: o show foi em meu benefício, músico, compositor, intérprete, instrumentista expulso de uma mul- ti-(nacional) por incompetência da própria. Estávamos na época de transição Médici-Geisel.

01/1974. Eu e o poeta Xico Chaves começamos a bater nas portas de nossos coleguinhas músicos e intérpretes para a criação da Sombras (Sociedade Musical Brasileira), nos intervalos da produção do álbum duplo “Banquete dos mendigos”. Convencê-los a trabalhar foi duro.

09/1974. Sou expulso da Polygram (ex-Phonogram) depois de lançar o disco “Aprender a Nadar” na Barca da Cantareira, em baixo do vão central da ponte Rio-Niterói. Canto o “Mambo da Cantareira“, lanço o disco e me lanço na baía de Guanabara —literalmente.

11/1974. Finalmente a Sombras, depois de trabalho desgastante junto aos colegas. A expulsão de uma sociedade arrecadadora impingida a mim, Caetano Veloso, Gilberto Gil, João Bosco, Guarabira, Aldir Blanc e Zé Rodrix (que nos traiu no final, recusando-se a continuar a ação que moviamos), porque pedimos uma necessária prestação de contas de nossos direitos autorais, apressou o processo de formação da entidade.

Nélson Mota no “O Globo” de 14/02/1975; “Em não se bastando em atividades, o ativíssimo Makalé está coordenando as hordas de falanges da música popular brasileira em torno da idéia da Sombras, entidade particular mantida e integrada por músicos, compositores e intérpretes, que terá como objetivo defender os interesses autorais e trabalhistas de todos com a força de uma central única de decisão, reivindicação de pressão junto aos organismos que, por ineficiência ou má-fé, impedem que se pos- sa viver dignamente de música no Brasil —um fantástico mercado, que o digam as gravadoras e sociedades de direito autoral.

A nova entidade não terá qualquer postura político-partidária e congregará toda Música Brasileira independente de escolas, gêneros ou outras categorias inúteis quando se trata de assegurar um mínimo de justiça e condições profissionais para os que fazem música no Brasil.”

12/1974. Precisávamos de um presidente que tivesse força representativa. Deu-se a idéia: Antônio Carlos Jobim. Perfeito. Fui escalado para dar a noticia a Tom. Conhecendo minha “turma”, telefono para Teresa, ex-mulher de Tom. Ela escreve com batom no espelho do banheiro: “Tom, não sala, Makalé vem al.” (Sempre tratei com as mulheres dos músicos. São elas que fazem a felra.) Sento-me em frente a Tom.

Explico. Ele fica em silêncio e, de repente, dá o berro: “Teresa, traga-me o revólver, querem me fazer presidente…”, Tento convencê-lo. Ele me diz que aceita diante dos argumentos financeiros de Teresa, mas com um porém… ele não aparece pra burocracia e dá uma procuração para Chico Buarque. Telefono pra Chico e pergunto se ele aceita. Aceita com uma condição: dar uma procuração pra alguém de confiança porque ele também não tem saco. Eu, de saco cheio, telefono para Hermínio que acelta a procuração dos dois. Estava formada a Sombras. Presidente: Tom. Vice-presidente: Hermínio Belo de Carvalho (que transformou-se em Presidente em exercicio).

Não percam o próximo capítulo. Na semana que vem: “Encontros Secretos”.

3 de novembro de 1985

Ex or Zen?

Trancado numa sala à prova de som, John Cage descobre que o silêncio é só uma invenção

Silêncio. John Cage parece um Hirundinídeo. Os Hirundinídeos, em todos os tempos, foram amados de tal forma que mereceram simpatia universal, por sua alegria, por suas curvas caprichosas que riscam o ar, em vôos extremamente musicais elegantes e baixos, e, sobretudo, porque são arautos da primavera.

Os gregos tinham-nos como um elemento prestante ao equilíbrio biológico, por serem sabidamente úteis no combate aos insetos nocivos. Eles eram benquistos dos deuses Penates, e maltratá-los constituía, entre os romanos, ação deplorável e punível.

Gilberto Vasconcellos, o Felisberto Gilberto, meu parceiro e compadre escreveu vários artigos nos quais aconselhava Tom Jobim a levar-me pela mão ao Corcovado, fora do ruído automobilístico. (Felisberto bota a culpa de nosso derrelicto no rádio do auto móvel e na indústria de auto móveis). Ok Felisberto, venceu. Só que subimos o Planalto Central e, sobre os sons da Sinfonia da Alvorada (Tom/Vinícius) fizemos as pazes definitivas. Sim, eu também tinha brigado com o Tom. E com o Rio que saiu do Tom.

Tom é o maior entendido em pássaros brasileiros e de outras terras, outras gentes. Ele sabe exatamente o que é um Hirundinídeo. Ele é um deles. NO D.F. falei para o Tom: “Juscelino foi o presidente Bossa Nova, Sarney foi o grupo Bossa Nova da UDN. Brasília é uma cidade Bossa Nova na arquitetura de Niemeyer e o Poder só ouve Bossa Nova em suas comemorações palacianas e “Tom ou em seus elevadores.’ viu-me atentamente e disse: “O Brasil precisa é de uma Nova Bossa Nova.”

Eu, Felisberto Gilberto e o Físico Suiço, lá no Cabo Branco, Parahíba, 1982, ponto Extremo Oriental da América do Sul, tínhamos razão: “O Brasil precisa de um Delta Zero memória. Pero Vaiz di Caymmi

New Tom. Sim, New Tom Jobim ou New Tomendonça. Ou New Tons.

Jogando xadrez com John Cage, passeando no Jardim Botânico, conversando placidamente na Sala Cecília Meireles, ou entrevistando-o depois do concerto, descobri semelhanças com um amigo meu. João Cage e John Gilberto. Logo depois que Cage foi para N.Y., telefonei para João Gilberto para confidenciar a experiência riquíssima pela qual havia passado: tinha ganho a partida de xadrez.

João me confidenciou: “Porque você deixou ele ir embora? Esse homem é um mestre, um santo. Que mais ele falou?” “Ele é muito parecido com você João. Ele tem essa coisa que você tem: o Novo de Novo. Como disse o Augusto de Campos no prefácio do livro John Cage, que são escritos do Cage de 1963 a 1967 traduzidos pelo mestro Rogério Duprat, “ouvidos novos para o novo/ ouvir com ouvidos livres/ a música está ao seu redor/ por dentro e por fora/ é só usar os ouvidos.

Happy New Ear. Gilberto roubou meu livro “Silence”, escritos de Cage que apareceram em 1961, que também roubei em 1968 de não sei quem (?). Lembrando-me de alguns escritos, perguntei a Cage se era realmente lenda que ele havia se trancado numa sala totalmente a prova de som com ampliação acústica para provar que o silêncio existia, mas o som de seu corpo (as batidas do coração, sangue correndo nas vei- as, nervos distendendo) provou que não existe o silêncio?

Cage respondeu-me: “Se eu não o fizes- se nenhum outro o faria. O Silêncio não existe.” Diante dessa inconfidência peguei papel caneta e desenhei um grande ponto de interrogação. Cage: “E bastante interessante esta pergunta. É as- sim que começo minhas composi- ções. Minha clave é esta.” Maka- lé: “Como você partiu para o quadrado rústico”. Cage: “com o cavalo do xadrez”. Xeque.

Finalmente torno-me M.D.C. (Músico depois de Cage). A.C./D.C.

‘Chega da inconfidência que esquartejou. Fim do mito do jeca. Viva a Confidência Brasileira Chega de chegar de saudade.” (Jards Makalé, João Gilberto, Gilberto Felisberto). Xeque Mate.

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