No dia 13 de novembro de 2015, Catherine Bertrand foi a um show na casa de espetáculos Bataclan, em Paris, com o então namorado. Ela não imaginava que, durante apresentação, presenciaria o pior ataque terrorista da história da França.
Os atentados de novembro de 2015 deixaram 130 mortos, 90 deles no Bataclan.
Hoje, Catherine é vice-presidente da Associação Francesa de Vítimas do Terrorismo, e conta em depoimento à Folha como a surpresa, o caos e a violência daquela noite geraram traumas que marcaram o país —e permanecem com ela até hoje.
“Eu saía do trabalho, bem ao lado do Bataclan. Por isso, era fácil para mim ir a concertos de rock, especialmente porque gosto muito desse estilo musical. Queria ir àquele show com meu namorado da época porque não conhecíamos o grupo que tocaria.
Quando entramos na sala, havia muita gente. Estava realmente lotado. Decidimos então ir ao balcão superior para ver melhor. Encontramos lugares sentados ali, bem de frente para o palco, então estávamos bem posicionados.
Houve a primeira parte, que transcorreu muito bem. O ambiente era realmente festivo. As pessoas estavam lá para se divertir, dançar, cantar. Depois veio o grupo principal, Eagles of Death Metal. Percebi claramente que havia muitos fãs do grupo presentes.
Em determinado momento, ouvi o que acreditei serem fogos de artifício. Mas, na verdade, não era isso. Como não conhecíamos o grupo, pensamos que talvez fizesse parte do show, porque ouvíamos os estampidos através das caixas de som. Como não sabíamos bem o que estava acontecendo —a entrada fica embaixo do balcão, então não víamos o que estava acontecendo abaixo— ficamos confusos.
Vi os músicos do grupo saírem do palco. Eles largaram seus instrumentos e partiram. Em seguida, a luz do Bataclan se acendeu, como se tivesse terminado o concerto. Nesse momento, efetivamente compreendi que algo estava acontecendo.
Quando a luz acendeu, vi pessoas deitadas no chão, outras tentando sair, pulando por cima de outras para escapar. Senti um cheiro de pólvora subindo pelo meu nariz. Estava realmente petrificada, paralisada, tentando compreender o que se passava.
Um homem chegou à minha esquerda, de pé, e me disse: “Precisamos fugir”. Foi graças a ele que saímos, pois estávamos paralisados. Partimos rastejando pelo corredor que fica atrás do balcão.
Havia banheiros ali. Víamos pessoas quebrando os forros falsos para se esconder. Tivemos vontade de fazer o mesmo, mas outro homem nos disse: “Não se escondam aí, vão matar vocês”. Isso nos dissuadiu de nos escondermos nos banheiros.
Avistamos então uma saída de emergência, uma escadaria. Abrimos a porta e havia uma enorme quantidade de gente naquela escada. Tentamos nos juntar àquele grupo. Conseguimos descer um pouco até o patamar, no meio do andar.
Havia muitos tiros, mas não sabíamos de onde vinham. Eram detonações muito fortes, sem que soubéssemos bem de onde provinham. Em determinado momento, pessoas saíram pela escada de emergência. Essa escada dá para a passagem Amelot, a pequena viela por onde todos saíram. Só que as pessoas não saíam. Ao contrário, as pessoas que tinham saído voltavam para dentro, na escadaria. Paralelamente, havia pessoas descendo em massa do balcão. Ficamos presos entre dois movimentos da multidão.
Ainda havia muitas rajadas de tiros, mas não sabíamos de onde vinham. Como vi pessoas que já tinham saído entrando pela escadaria, isso me fez pensar que havia alguém na rua atirando. Foi por isso que tivemos que esperar que houvesse menos tiros e que as pessoas saíssem aos poucos.
Fizemos uma fila de espera. As pessoas saíam quando se sentiam prontas, entre duas rajadas de tiros. Em determinado momento, chegou a minha vez. Naquele momento, eu não ouvia mais nada. Pensei: “Ou vai ou racha”. Saí e pensei que ia correr direto e me refugiar em algum lugar.
Comecei a correr, mas havia muitas pessoas deitadas no chão. Não sabia se estavam mortas ou vivas. Vi um policial e pensei que ele fosse me socorrer. Mas à medida que me aproximava, percebi que ele não podia fazer nada por mim. Estava totalmente perdido.
Isso me perturbou tanto que me enganei de direção. E olha que conheço muito bem o bairro. Em vez de ir para a direita, fui para a esquerda. Voltei para a frente do Bataclan. Havia corpos no chão, o que eu não tinha visto na minha fuga, até que tropecei num corpo.
O fato de tropeçar naquele corpo me despertou do meu estado dissociativo. Comecei a entrar em pânico. Atravessei o Boulevard Voltaire sem olhar o trânsito e quase fui atropelada por um carro. Felizmente, ele freou no último momento.
Corremos, meu namorado e eu. Não conseguia mais respirar. Desabei no chão e tive uma crise de ansiedade. Tentei recuperar os sentidos.
Chegamos a um café onde estava passando uma partida de futebol. Através das vitrines, vimos que as pessoas não estavam se divertindo. Todas olhavam a televisão de maneira perplexa. Isso me intrigou.
Em determinado momento, ouvi uma enorme detonação vinda do Bataclan. Não dava mais para vê-lo. Foi tão forte que pensei que o Bataclan tivesse desabado, tamanha era a potência. Comentamos que era realmente preciso fugir dali.
Já fazia cerca de meia hora desde o início do ataque. O socorro ainda não tinha chegado. Ainda não haviam bloqueado o trânsito. Pensamos que era nossa única chance de pegar um táxi e voltar para casa.
Encontramos um táxi. O motorista estava escutando a partida no Stade de France e nos explicou que teve uma bomba, estava realmente em pânico. Explicamos a ele que estávamos saindo do Bataclan e que ali a coisa não estava melhor. Ele não entendeu o que dissemos, então desistimos.
Fiz todo o trajeto do táxi deitada para não levar um tiro. Quando compreendi que Paris estava sendo atacada, pensei que até mesmo no táxi não estávamos protegidos. Deitei para que não me vissem.
Comecei a receber muitas ligações de parentes preocupados comigo, porque muitos sabiam que eu ia ao Bataclan naquela noite. Foi preciso tranquilizá-los, dizer que estava viva, que tínhamos saído, que não estava fisicamente ferida e que estava tudo bem.
Voltamos para casa. Não tínhamos entendido direito o que havia acontecido e precisamos ver as notícias. Olhamos as notícias a noite toda e passei a noite ao telefone tranquilizando meus parentes.
Descrevi na HQ o trauma como uma bola de ferro. A bola de ferro é menor hoje, isso é uma certeza, porque tenho sintomas que desapareceram. Por outro lado, há sintomas que ou voltam, ou não desaparecem.
Às vezes tenho ondas de pesadelos. Há momentos em que não tenho nenhum pesadelo, durante meses. Agora está voltando. É bastante flutuante. Infelizmente, há altos e baixos.
Compreendi com o tempo que a bola de ferro estará sempre lá, mas é o tamanho que muda. Hoje, por exemplo, está pequena. Sei que sempre que há algo horrível na França todos os meus sintomas voltam de uma vez.”



