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México: Sexismo fez da presidente alvo de assédio sexual – 08/11/2025 – Sylvia Colombo

O sujeito apareceu por trás e tentou dar um “beijinho” no pescoço da presidente do México, Claudia Sheinbaum. Logo veio o toque nos seios da mandatária. Um segurança reagiu e afastou o sujeito, claramente alcoolizado.

A cena correu o mundo em poucas horas. Afinal, ocorreu em plena luz do dia no centro histórico da Cidade do México, diante de várias câmeras e da população.

No dia seguinte, na tradicional “mañanera”, a entrevista coletiva que ocorre todas as manhãs na capital do país, Sheinbaum tratou do assunto de modo sério, como é de seu feitio. “Se isso é feito com a presidente, o que acontece com todas as outras mulheres do país?”

A pergunta faz todo o sentido. A violência que ela sofreu não é um desvio, mas um retrato fiel do México. Segundo dados oficiais, 23 milhões de mulheres já sofreram assédio sexual nas ruas. Quase 45% das mulheres mexicanas relatam ter passado por esse tipo de violência ao menos uma vez na vida. Pior, 94% das vítimas não denunciam os ataques sofridos.

Se uma coisa deve ser atribuída como positiva no governo de seu antecessor, Andrés Manuel López Obrador, foi a abertura de linhas de denúncia para a violência contra a mulher.

Ainda assim, o receio prevalece na hora de denunciar. Alguns especialistas apontam para uma “normalização” sedimentada há muitos anos, principalmente nos povoados do interior. Mas a geração mais jovem das mexicanas é menos afeita a essa interpretação e tem saído às ruas em defesa das políticas de gênero.

A presidente, então, decidiu fazer o que apenas 1 em cada 10 mulheres no México ousa, hoje, fazer: apresentar queixa criminal contra o agressor. Trata-se de gesto importantíssimo, porque o assédio raramente chega aos tribunais. A resposta institucional veio com o anúncio de uma revisão dos códigos penais nos 32 estados do país para que o assédio seja tipificado como crime em todo o território nacional.

A agressão também expõe um segundo nível de violência, a política. Sheinbaum foi atacada não apenas como mulher, mas como figura de autoridade e de esquerda, à frente da segunda maior economia da América Latina. Sua condição de presidente não funcionou como proteção. Ao contrário, a transformou em alvo e mostrou o que ainda, infelizmente, significa ser mulher em posição de comando, num país de população com 51% de mulheres e 20% de indígenas.

No México, como em tantos países latino-americanos, o assédio ainda é visto como gesto de irreverência e não como crime. Novamente, são as novas gerações que vêm mudando isso. Mas há países em que essa batalha é muito mais difícil, como a Bolívia e o Paraguai.

A violência sexual, quando dirigida a mulheres em cargos públicos, carrega um recado conhecido: não importa quem você seja, seu corpo continua sendo um alvo antes do cargo que ocupa ou pleiteia.

A reação social revelou as duas faces do México. De um lado, milhares de mexicanas viram no vídeo a confirmação de suas próprias experiências cotidianas. De outro, a oposição insinuou tratar-se de encenação, repetindo um padrão mundial: quando uma mulher denuncia violência, a primeira reação é duvidar dela, não do agressor.

O episódio também expõe o que muitas feministas mexicanas vêm denunciando há anos: o sistema está disposto a punir o agressor pobre, mas hesita quando o assédio vem de homens com prestígio intelectual ou poder institucional. Aqui se reflete a história do México de um modo geral, um país de forte tendência classista.

Não sabemos como será o desenlace desse caso. Mas, por ora, o México continua sendo o país onde o assédio já era regra antes de atingir a presidente.


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