A cultura da convergência, conceito trabalhado pelo pesquisador de comunicação Henry Jenkins, chegou a Derry. Entre massacres de crianças, assombrações de medos mais profundos e uma entidade cósmica encarnada num palhaço do século 20, o retorno da mitologia de “It: A Coisa” se mostrou um caldeirão de referências que mobilizou o fandom de um jeito que só se via com tanto ímpeto em títulos da Marvel.
A primeira temporada da série “It: Bem-vindos a Derry” chegou ao fim no último domingo (14). Foram oito episódios com aumento constante de audiência e picos de 60% a mais de espectadores a cada semana, segundo dados de medição da Nielsen. Isso significou aproximadamente 6 milhões de espectadores nos capítulos finais, marca impressionante a um programa que atrasou pela greve de roteiristas e precisou se afastar de um filme mal recebido em 2019 e com bem menos impacto do que a primeira parte, de 2017.
“It: A Coisa“, dirigido pelo argentino Andy Muschietti, foi realmente um fenômeno oito anos atrás. Com US$ 719 milhões em bilheteria, segue firme como filme de horror para adultos mais lucrativo da história. A parte 2, por outro lado, rendeu “apenas” US$ 473 milhões, diferença bastante significativa. Não foi, portanto, como se “Bem-Vindos a Derry” fosse uma aposta garantida da Warner, ainda que o estúdio tenha trazido de volta a mesma equipe criativa dos filmes, com os irmãos Andy e Barbara Muschietti à frente.
Vendida como “prequel” dos filmes e inspirada em trechos mais digressivos do romance de King, a série reacendeu a paixão dos fãs logo na estreia, ao ser praticamente um remake do primeiro filme ambientado em 1962. Até alguns movimentos de câmera se assemelhavam, assim como o carisma do grupo central de crianças investigando desaparecimentos na pequena Derry, no estado do Maine.
Mas o desfecho do piloto, com a morte violentíssima de boa parte do elenco infantil, acendeu um alerta nos espectadores de que as coisas poderiam ser imprevisíveis ao longo da temporada. Nem foi para tanto, mas os Muschietti sustentaram uma trama envolvendo o núcleo infantil, militares em busca da Coisa à luz da Guerra Fria, a origem da entidade e sua relação com povos originários e até a inserção do paranormal Dick Hallorann, personagem de outro livro de King, “O Iluminado“.
A presença mais aguardada da série ficou reservada para o episódio 5 e adiante. O ator sueco Bill Skarsgård, que vivera o palhaço Pennywise nos dois filmes, reprisa o papel com ainda mais insanidade, sarcasmo e truculência. Além de tê-lo em cena tão ou mais poderoso que nos longas-metragens, a série mostrou ainda a versão humana do personagem, antes dele ter o corpo e a mente tomados pela Coisa. Isso deu a Skarsgård a oportunidade de mostrar talento também como o homem palhaço viúvo e deprimido que só quer trabalhar e cuidar da filha num circo itinerante meio vagabundo em 1908.
Todo esse cenário se costurou ao longo dos episódios em relação direta com os filmes e rendeu teorias e hipóteses nas redes como poucas vezes acontece em séries mais nichadas e nem tão prestigiosas –como, por exemplo, uma “Pluribus” da vida. O uso um tanto exagerado de computação gráfica nas cenas de horror e alguns lances forçados de roteiro não ajudaram muito a colocar “Bem-Vindos a Derry” no patamar de “era de ouro” da TV ou streaming, mas ironicamente essa foi uma de suas qualidades.
Afinal, “It – A Coisa”, em 2017, foi um grande exemplar do melhor que Hollywood pode oferecer na seara do terror de shopping, aquele mais próximo da experiência do susto e da tensão e mais distante de uma suposta seriedade por vezes exigida para o gênero ser levado a sério. Por dois meses, “Bem-Vindos a Derry” foi um misto de bagaceira visual e reflexões sobre infância, sacrifícios, promessas não cumpridas e resiliência que serviu muito bem aos propósitos dos Muschietti e certamente aos anseios do público.
Não fosse só isso, especialmente o episódio final trouxe vários detalhes diretamente relacionados aos filmes e ao romance “It”, e a outras criações de Stephen King, de “Carrie, a Estranha” a “O Nevoeiro“. Tudo isso gerou a catarse que os fãs desse tipo de horror mais comercial e engajante mereciam há tempos.
Nem só de super-heróis vivem os universos compartilhados: eles também podem ser habitados por palhaços intergalácticos que circulam por passado, presente e futuro insistindo em não morrer. E se as outras duas temporadas planejadas terão o sinal verde que a audiência indica dependerá da confusa venda da Warner, ainda em andamento.



