O que vimos neste domingo? Para além de um resultado contundente e incontestável, o primeiro ponto é reconhecer o funcionamento institucional: menos de duas horas após o fechamento das urnas, o Serviço Eleitoral já havia apurado cerca de 97% dos votos. Naquele momento, o conservador José Antonio Kast superava 58%, com mais de sete milhões de votos. Enquanto as redes sociais oscilavam entre sarcasmo e celebração, os principais atores políticos demonstraram um comportamento republicano e um compromisso inequívoco com a democracia.
O significado mais profundo desta eleição, porém, está na emergência de uma nova clivagem política. Pela primeira vez desde o retorno à democracia, o Chile elege um presidente que votou “Sim” no plebiscito de 1988 e participou ativamente da campanha de Pinochet. Durante décadas, isso teria sido impensável, não porque a direita não pudesse vencer —ela já havia vencido—, mas porque o eixo ditadura/antiditadura funcionava como um limite simbólico estruturante. Hoje, esse limite deixou de organizar a política chilena.
A eleição de 2025 não representa apenas uma mudança de governo, mas o deslocamento do eixo que ordenou a competição política por mais de 25 anos. A evidência territorial é clara: o mapa eleitoral se assemelha muito mais ao plebiscito de 2022 —que rejeitou a proposta constitucional progressista— do que às votações associadas à transição democrática. Os municípios que votaram pela rejeição voltaram a se alinhar de forma quase idêntica em 2025, enquanto o peso explicativo do plebiscito de 1988 se dilui.
Não se trata de uma intuição impressionista, mas de um realinhamento observável. A velha clivagem democracia-ditadura sobrevive como identidade simbólica, mas já não estrutura decisivamente o voto. Em seu lugar emerge um novo eixo, nascido do ciclo iniciado em 2019: restauração versus refundação. Esse eixo opõe interpretações distintas da explosão social, da ordem pública e do processo constituinte. Para o polo restaurador, 2019 representou uma ruptura da ordem e da autoridade estatal; para o polo refundador, foi a expressão legítima de um mal-estar acumulado e de um modelo esgotado.
A campanha presidencial refletiu esse deslocamento. Tanto Kast quanto a candidata governista Jeannette Jara organizaram seus diagnósticos em torno do ciclo 2019–2023, não do passado autoritário. A diferença esteve na ênfase: ordem e segurança, de um lado; direitos sociais e transformação, de outro. A virtual ausência do eixo ditadura/democracia é tão reveladora quanto sua antiga centralidade.
Esse realinhamento também se expressa nas elites. Figuras historicamente associadas ao “Não” de 1988 apoiaram candidaturas do polo restaurador, sinal clássico de enfraquecimento estrutural de um eixo histórico. Não se trata apenas de alternância ou voto de punição: trata-se, possivelmente, de uma clivagem em formação, ainda incompleta, mas já suficientemente potente para estruturar o voto e as estratégias políticas.
A eleição de 2025 não encerra esse processo, mas deixa algo claro: o eixo ditadura-democracia já não é o princípio organizador central da política chilena. O debate hoje gira em torno de como interpretar e responder à crise aberta em 2019. Ler este cenário como se ainda estivéssemos em 1988 é não compreender a natureza das tensões políticas atuais.
Tradução automática revisada por Isabel Lima
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