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‘Matilde’: humor, romance e Rita Lee – 04/12/2025 – Mise-en-scène

“Matilde” é daquelas raras comédias que conseguem ser hilárias e profundas ao mesmo tempo. Criada por Paulo Gustavo para Malu Valle em 2015, a montagem, que tem direção de Gilberto Gawronski, é uma celebração vibrante da vida, do humor e da coragem, tudo isso costurado por uma trilha sonora calorosa com músicas de Rita Lee que dão o tom perfeito para a história.

O enredo parece simples: Matilde, uma mulher de 60 anos que mora sozinha em Copacabana, decide alugar um quarto para Jonas (Ivan Mendes), um ator mais novo em começo de carreira. Mas o que poderia ser apenas uma situação cômica se transforma numa reflexão afiada sobre envelhecimento numa sociedade que descarta mulheres à medida em chegam à maturidade.

Malu Valle está formidável no papel principal. Ela dá vida a uma Matilde que é ao mesmo tempo engraçada, vulnerável e dona de si. As músicas de Rita são tão bem colocadas que parecem ter sido feitas para a peça, dialogando com a narrativa e amplificando as emoções.

Paulo Gustavo sabia como ninguém misturar humor e humanidade, e “Matilde” honra esse legado com competência. A peça faz rir das situações mais inusitadas, mas também emociona quando fala de solidão, preconceito e da coragem de ser quem se é – independentemente da idade.

Com diálogos afiados, boas performances e a trilha sonora perfeita, “Matilde” prova que uma comédia pode ser inteligente e emocionante. É teatro popular no seu melhor – daquele que consegue divertir, mas fica ecoando na cabeça (e no coração) muito depois que o palco escurece.

Três perguntas para…

… Malu Valle

A peça aborda temas sensíveis como envelhecimento, relações intergeracionais e sexualidade na terceira idade. Como você acredita que a comédia contribui para a discussão dessas questões?

“Matilde” é uma comédia romântica musicada. É leve e, dessa forma, ela consegue tocar as pessoas.

A gente escuta todos os tipos de pessoas. Desde jovens de 17 anos, como mulheres mais velhas, de 70, 80 anos, falando que se emocionaram, que choraram, umas brincam que vão alugar um quartinho, porque é o que Matilde faz, e entra esse jovem na vida dela, jovem não, um homem já, mas bem mais novo do que ela. Então, eu creio que dessa forma, com as pessoas rindo, torcendo pela relação dos dois, é uma forma de fazê-las pensar: nos tempos de hoje, o que é terceira idade? O mundo mudou muito!

Hoje, “A Mulher de Trinta Anos”, de Honoré de Balzac, por exemplo, seria a mulher de 60, de 70? Penso que houve uma grande mudança nessa questão das gerações em relação a sexualidade, não tem mais idade certa. Uma mulher de 80 anos pode estar ativa sexualmente.

A peça é dedicada a Paulo Gustavo. Como você sente a presença e o legado dele nesse projeto?

A presença dele é fundamental. Esse espetáculo existe, porque há 10 anos o Paulo quis me dirigir para comemorar o nosso encontro, que então completava 10 anos. Ele sugeriu: “agora vamos inverter nossos papéis, eu te dirijo”. Como eu achava que ele não devia escrever, pois eu conhecia muito a inflexão dele, fiquei com medo de imitá-lo. Daí apresentei a Julia Spadaccini, e ela escreveu, com base na ideia dele, sobre dois personagens com idades diferentes para que o público tivesse um guarda-chuva amplo, que não falasse apenas para uma geração, e sim para várias, que é o que está acontecendo em “Matilde”. Dedicamos o espetáculo a ele, porque se não fosse ele, esse espetáculo nem existiria.

“Matilde” também celebra seus 35 anos de carreira. Como você vê a evolução do teatro e do humor no Brasil ao longo dessas três décadas?

Nos meus longos 35 anos de carreira, o humor, na evolução do teatro e do humor no Brasil, mudou muito, às vezes para o bem e para o mal. Para o bem, porque o humor é muito importante.

Eu acho que, através do humor, quando você ri às vezes de você mesmo, que era uma coisa que o Paulo Gustavo fazia de uma forma impressionante nos seus personagens, você pode se rever e rever o outro. Hoje há muitas restrições de coisas que não são politicamente corretas.

Eu acho que as mudanças que acontecem na nossa sociedade são muito importantes, mas, às vezes, para haver uma mudança, você radicaliza um lado demais. Isso eu acho que não é legal. Não é legal haver censura no humor, mas acho que precisa haver bom senso para não ridicularizar minorias e etc. Adoro fazer comédia, estreei fazendo comédia e estou comemorando meus 35 anos fazendo outra comédia.

CCBB – rua Álvares Penteado, 112, centro histórico. Qui. e sex., 19h. Sáb. e dom., 18h. Até 25/1 ( com pausa entre 22/12 e 7/1). Duração: 80 minutos. A partir de R$ 15 (meia-entrada) em bb.com.br/cultura

Acessibilidade em Libras nas sessões de 20/12 e 17/1, sábados. Audiodescrição na sessão do dia 10/1, sábado. Bate-papo pós sessão do dia 13/12, sábado (duração 40 min)


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