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EUA: Violência política muda a vida de americanos – 03/12/2025 – Lúcia Guimarães

“Prefiro que a minha casa não seja alvo de uma bomba incendiária”, disse um membro da Assembleia Estadual de Indiana a um repórter que o procurou. Mas o político eleito, que depende da interação com o público, pediu anonimato para comentar o debate sobre o mapa eleitoral.

Múltiplos integrantes da Câmara de Indiana estão vivendo sob ameaças de morte porque não querem alterar o mapa de distritos do estado para dar vantagem ao Partido Republicano na eleição de 2026, a pedido do presidente Donald Trump. Estranha a falta de solidariedade presidencial, já que, como candidato, Trump foi alvo de um atentado a tiros e escapou de outro.

A tolerância dos EUA com a violência, em geral, é alta se comparada à de países ricos. Mas, na última década, o aumento da violência política se distingue por estar mais alinhado a divisões político-partidárias.

O autor do atentado incendiário que quase custou a vida do governador judeu da Pensilvânia, Josh Shapiro, em abril passado, declarou que queria matá-lo para mudar o apoio americano a Israel durante a guerra em Gaza.

O assistente funerário Vance Boelter mencionou convicções antiaborto ao ser preso pelos assassinatos da ex-presidente da Assembleia de Minnesota, a democrata Melissa Hortman, e de seu marido, em junho.

A bibliotecária Amanda Jones, de Luisiana, dorme com um fuzil ao seu alcance e viaja armada para conferências escolares.

Há alguns anos, no auge da febre do movimento ultraconservador para banir livros em bibliotecas públicas e nas escolas, ela argumentou que as instituições já tinham procedimentos para acolher queixas de leitores ou de pais. Logo virou meme como promotora de pornografia e teve seu endereço divulgado.

Os autores das ameaças são simpatizantes de grupos financiados por bilionários republicanos que transformaram escolas em campos de batalha ideológica.

Num episódio que chocou o país, em outro exemplo de alinhamento a um debate partidário –o seguro saúde– Luigi Mangione matou, numa rua de Manhattan, o CEO da maior empresa do ramo, a UnitedHealthcare, em dezembro do ano passado.

Pesquisas mostram que 1 a cada 4 adultos americanos, e 4 a cada 10 jovens adultos expressam apoio a Mangione, que se dizia revoltado com a notória recusa de tratamentos de saúde pela indústria privada. Dezenas de mulheres jovens que se identificam como “mangionistas” se acotovelam na porta de um tribunal de Nova York, a cada audiência do assassino que aguarda julgamento.

A rotina de ameaças de morte está por trás da disparada no número de deputados que desistiram da reeleição em 2026. Não se pode ignorar a ironia do risco de Trump perder a maioria da Câmara e ter sua agenda paralisada, já que a maioria dos desistentes –40 até agora– é formada por deputados republicanos que passaram o ano tentando se desviar de ataques, cada vez que ousavam discordar do presidente.

O Congresso está discutindo a alocação de fundos para postar um segurança armado para cada membro em visita a seus distritos.

A violência política aumenta com a tolerância dos políticos eleitos. Seria difícil imaginar, há quase cinco anos, a complacência da atual maioria republicana nas duas Casas do Congresso ao indulto presidencial em massa concedido aos invasores do Capitólio. Neste próximo ano eleitoral, é fácil prever que o cenário não vai melhorar.


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