São Paulo
A exposição “Debret em Questão-Olhares Contemporâneos” acaba de ser inaugurada no Museu do Ipiranga. A mostra parte da iconografia criada pelo pintor francês Jean-Baptiste Debret, no século 19, e examina como suas imagens seguem influenciando a maneira como o Brasil enxerga o próprio passado.
A curadoria é de Jacques Leenhardt –sociólogo e autor de estudos sobre Burle Marx e Debret–, e Gabriela Longman, jornalista e pesquisadora que já criou projetos para instituições como Inhotim e MAM-SP.
Obra ‘Arqueiro digital’ (2017), de Denilson Baniwa, na exposição Debret em Questão-Olhares Contemporâneos
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Divulgação
Entre as obras, estão gravuras, fotografias, aquarelas, cartões postais, colagem digital, além de instalações com técnicas mistas, papel e vídeo. A exposição se organiza em dois blocos, o primeiro reúne 35 pranchas litográficas —os próprios suportes das gravuras– do livro ” Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil”, publicadas entre 1834 e 1839 pelo artista.
Debret registra o cotidiano do Rio de Janeiro com foco nas relações sociais, no trabalho e na violência da escravidão. Suas imagens se tornaram uma das referências visuais mais conhecidas do Brasil do século 19, reproduzidas em livros didáticos, publicações e objetos, muitas vezes sem o contexto crítico que acompanhava o material original.
Na segunda parte, 20 artistas retomam essa iconografia como campo de disputa histórica. Aparecem trabalhos como da maranhense Gê Viana, uma das jovens artistas em destaque atualmente. Em suas obras, diferentes imagens são sobrepostas, para permitir que o passado e o presente se encontrem. É o caso da série “Paridade” e “Atualizações traumáticas de Debret”, em que ela recorda o quanto as imagens do passado colonial permaneceram traumáticas para aqueles que nelas se veem representados.
O núcleo inclui ainda obras de Anna Bella Geiger, pioneira na arte abstrata brasileira. A série “Brasil nativo/Brasil alienígena”, feita em 1977, é formada por dois conjuntos com nove imagens que questionam as representações e as narrativas do que seria “civilizado” ou “selvagem”, como Debret o fez em diferentes passagens do livro.
Denilson Baniwa expõe quatro trabalhos, entre colagens digitais, infografura e técnica mista sobre impressão fotográfica. Em suas obras, ele também incorpora elementos da tecnologia e da cultura contemporânea, inserindo novos símbolos, como o da rede wi-fi, no trabalho “Arqueiro digital”.
Já o artista plástico Jaime Lauriano, conhecido por revisitar a história brasileira para expor as violências do colonialismo e suas permanências, apresenta a instalação “Brasil através do espelho”, que discute etnocídio, apropriação cultural e democracia racial. Ele também exibe a série “Justiça e Barbárie”, com fotografias de cenas de violência divulgadas pela mídia.
Rosana Paulino participa com a obra “Paraíso Tropical”, um tríptico (uma só obra, com três partes) feito em técnica mista sobre papel, que revê a ideia do Brasil como paisagem paradisíaca e contrapõe imagens de Debret a palavras associadas ao imaginário exótico, apontando para um território marcado pelo extrativismo.
Outro destaque fica para uma sala dedicada a um desfile sobre Debret, feito pela escola carioca Acadêmicos do Salgueiro no Carnaval de 1959, registrado pelo fotógrafo Marcel Gautherot (1910-1996).
A mostra ocupa o salão de exposições temporárias, no piso jardim, e integra a Temporada França–Brasil 2025, que celebra os 200 anos de relações diplomáticas entre os dois países. Ela foi apresentada em versão mais sucinta na Maison de l’Amérique Latine, em Paris, entre abril e outubro deste ano.
Debret em Questão – Olhares Contemporâneos.
Museu do Ipiranga. R. dos Patriotas, 100, Ipiranga, região sul Grátis. Somente para essa exposição. Ter. a dom., das 10h às 17h. Até 17/5/26



