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Djavan é um oceano, e djavanear é mesmo tudo de bom – 20/11/2025 – Djamila Ribeiro

Foram algumas horas até começar essas linhas. Sentei-me decidida a homenagear Djavan, um dos maiores cantores e compositores da história deste país. Um gênio.

A princípio, pensava em escrever sobre como ele é a representação de um músico “sofisticado popular”, cuja existência, além de brilhante, afronta crenças racistas e limitantes enraizadas na indústria musical brasileira — como a de que, se a música é para o povo, então ela não pode ser sofisticada.

Contudo, ao mergulhar nos vídeos de suas entrevistas da última semana, esqueci-me do tempo e das intenções. Com 50 anos de carreira, Djavan está amando como nunca —pois o amor nunca é igual— e inspirado como sempre. Sabedoria, causos e novidades fizeram as horas voarem, em uma viagem através de suas mensagens.

Depois disso, ouvi pela primeira vez o seu mais recente álbum, “Improviso”, motivo das entrevistas. A ordem pode parecer estranha, mas aprendi que sua voz é a última a chegar à melodia. Primeiro vêm os arranjos, o baixo, a bateria, os sopros, as cordas. Só depois a letra. Uma produção independente, de quem escreve o que quer e canta o que sente. De quem trabalha muito, mas dorme tranquilo com a certeza de que o resultado vai ser o que espera.

Percebi, então, que seria inevitável escrever, também, sob esse impulso do improviso. Afinal, é impossível ouvi-lo falando e cantando sobre amor sem deixar que algo afete o corpo e a escrita.

Então começo. Foi com sua capacidade ímpar, como o zum de besouro que ele imortalizou, que me vi encantada logo no início da jornada. Em entrevista a Lucas Brêda, Djavan falou de músicas que vieram em sonhos. Entre elas, a simplesmente grandiosa “Samurai”, pérola que compôs para Stevie Wonder. Ele conta que a canção —com o início inconfundível “ai, tanto querer”— surgiu-lhe num sonho. É uma manifestação de dádiva, dom, intuição e de todo um cosmo que o barulho da cidade, o cheiro de fumaça e a luz das telas insistem em perturbar.

Nas entrevistas, soube mais sobre sua mãe, dona Virgínia Viana —uma líder comunitária e familiar de determinações inspiradoras, referência de conduta, lavadeira que sustentou cinco filhos. Ela foi sua base, previu o destino radiante do filho como cantor.

Dona Virgínia viveu em um mundo do qual negros e negras estavam excluídos de tudo.

Djavan lembrava de quando a mãe lhe dizia que, infelizmente, os negros não podiam estar em certos lugares. Nas entrevistas pude entender ainda melhor o contexto de quem protegeu os filhos como pôde da violência do racismo e construiu as fundações para que sua descendência tivesse um futuro diferente.

Um futuro já presente, no qual podemos falar para nossas filhas e filhos sobre disputar a presença em todos os lugares, sem romantizar um sistema que permanece o mesmo. Como ele disse em bela entrevista para Maria Fortuna, do jornal O Globo, “o negro continua sendo hostilizado, sendo preterido, o negro não é aceito de maneira natural. O negro para conseguir uma posição ele tem que mostrar dupla capacidade, tem que trabalhar muito mais, estudar muito mais para chegar ao mesmo lugar aonde o branco chegaria com naturalidade”.

“Porque a sociedade formatou o mundo para o branco. É o branco que governa, é o branco que domina as ações do mundo. Eles fizeram esse mundo para eles mesmos. O negro só entra se for muito raçudo, se for muito foda. Se não for, não tem espaço”, completou.

E Djavan é muito foda. Há décadas, seus sucessos e shows lotados com públicos de todas as gerações fizeram dele um artista que experimentou a mudança social. Passou a poder ter o carro que quis e um patrimônio que jamais fez parte de sua juventude. Como ele alerta na entrevista nesta Folha, transições como essas são um perigo e já deixaram muita gente deslumbrada, perdida.

Então Djavan diz que, além da raça e do dom, ele nutre suas forças com sua família. “É a família que segura a cabeça do indivíduo que cai nessa situação.” De coração aberto, fala do amor pela sua companheira, Rafaella Brunini, com quem é casado há 28 anos, pelos seus cinco filhos e seus netos.

Muito mais poderia escrever sobre ele e suas palavras recentes, mas a inspiração encontra limites —no meu caso, o por vezes frustrante limite de caracteres. Estaria eu sob efeito, “djavaneada”? Pois chego ao fim e sei que daria para discorrer sobre seu amor por compor e a vitalidade que isso lhe traz, o amor aprendido pela observação, o amor que surgiu da solidão. Ou, ainda, sobre a coragem de se entregar ao amor com a humildade sobre ele pouco saber.

A verdade é que qualquer síntese será inesgotável, pois Djavan é um oceano. E “djavanear” é mesmo tudo de bom.


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