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Jogo duplo do petróleo limita entregas da COP30 – 16/11/2025 – Bianca Santana

Ao responder à pergunta de um estudante, na semana passada, me dei conta de que a COP30 evidencia diferentes maneiras de agir de países que têm o petróleo no centro de suas economias.

Enquanto a Arábia Saudita trabalha abertamente para bloquear qualquer pacto que ameace a exploração de combustíveis fósseis, a Noruega mantém sua imagem de liderança preocupada com a urgência climática enquanto aprova novas frentes de exploração fóssil no Ártico.

Um paralisa as negociações. Outro adia a transição energética. Olhar para ambos ajuda a compreender por que Belém avança menos do que poderia.

A diplomacia da Arábia Saudita contesta propostas e consensos e busca condicionar qualquer linguagem sobre eliminação de combustíveis fósseis à compensação econômica de países que, como ela, produzem petróleo. A nação que tem sido lida pela imprensa internacional como principal barreira à ação climática global enfrenta, ela mesma, aquecimento acelerado e risco real de se tornar inabitável.

Decisões esperadas na primeira metade da conferência –como metas, regras de mercado e instrumentos de transparência– foram adiadas por terem sido condicionadas aos acordos sobre financiamento.

A Noruega, que tem sido celebrada como liderança climática por de fato investir em energia renovável, políticas de adaptação e cooperação internacional, mantém –e expande– sua produção de petróleo e gás no Ártico. A contradição evidencia a incoerência de um país que se descarboniza internamente enquanto prolonga a dependência global dos fósseis que exporta.

A ciência aponta que os próximos anos serão determinantes para evitar danos irreversíveis. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), grupo científico da ONU que consolida o consenso global sobre o clima, é explícito: reverter, ou mesmo evitar, a pior parte desses danos depende de reduzir de forma imediata e profunda a extração e o uso de carvão, petróleo e gás, porque cada novo projeto fóssil aprovado hoje empurra o planeta para limites climáticos que não podem ser desfeitos.

Mas a COP30 tem evidenciado que modelos de Estado construídos sobre o petróleo –seja a Arábia Saudita, seja a Noruega– jogam no tabuleiro das relações internacionais, cada qual a seu modo, para continuarem explorando combustíveis fósseis.

A Arábia Saudita usa o consenso e a lentidão processual como instrumentos de veto. A Noruega usa sua reputação e sua tecnologia como escudo para manter a continuidade da exploração. Cada um, à sua maneira, limita o que Belém poderia entregar ao mundo.

O Brasil não está fora desse jogo de incoerências. Mesmo buscando liderar a agenda climática ao sediar a COP30, defender o combate ao desmatamento e propor novas arquiteturas de financiamento, mantemos aberta a possibilidade de perfuração na foz do Amazonas e discutimos novas fronteiras de exploração.

A indefinição sobre a expansão da Petrobras e a insistência em tratar o pré-sal apenas como desenvolvimento revelam a tensão permanente entre o discurso de transição justa e a prática de prolongamento do modelo fóssil.

Assim como Noruega e Arábia Saudita, o Brasil tenta equilibrar ambição climática e interesses econômicos ancorados no petróleo. E essa ambivalência também pesa no ritmo que Belém consegue dar às negociações.


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