Infelizmente, Erich Mielke, o grande chefe da Stasi, a polícia política da Alemanha Oriental, morreu no ano 2000, quatro anos antes do lançamento de uma invenção que lhe teria agradado muitíssimo: o Facebook.
A Stasi conseguia obter várias informações sobre as pessoas, mas à custa de bastante esforço, e com algumas limitações. Por exemplo, a Stasi não conseguia saber em que é que as pessoas estão a pensar. Ora, essa é a pergunta que o Facebook faz aos seus usuários todos os dias: “Em que está a pensar?”
E eles revelam, tanto respondendo à pergunta como através das suas ações. Se visitam determinada página isso indica que estão pensando em determinada coisa. Dizem também com quem estão e até o que estão sentindo.
É frequente vermos um usuário publicar uma fotografia de si próprio com três amigos num bar com a legenda: “Márcio esteve com João, Clarice e Antônio. A sentir-se eufórico.”
Também acontece de o Facebook monitorar os movimentos dos usuários, como a Stasi fazia —mas muito melhor. Se alguém vai ao médico, por exemplo, quando chega a casa tem uma sugestão do que diz: pessoas que talvez conheça. E uma delas é o médico em cujo consultório esteve há meia hora.
O celular do doente cheirou o do médico, verificou que estavam ambos no mesmo recinto, e supôs que talvez fosse boa ideia apresentá-los. É um nível de conhecimento dos cidadãos com o qual a Stasi podia apenas sonhar.
Quando a Cambridge Analytica recolheu informações pessoais de 87 milhões de usuários do Facebook para os manipular politicamente, Mark Zuckerberg, o inventor do Facebook, lamentou o sucedido. Disse que tinha sido ingênuo, e sugeriu que não lhe tinha ocorrido que as pessoas fossem usar a sua invenção para o mal. Isso é mesmo muita ingenuidade.
Eu admito que o romano anônimo que, nas vésperas do primeiro milênio, inventou a técnica do sopro de vidro, que popularizou a produção de garrafas, não tenha previsto que a sua invenção iria ter utilizações negativas.
É improvável que, ao olhar para a primeira garrafa, ele tenha conseguido antever: um dia, alguém vai querer meter isso na bunda. Mas, quando se inventa uma ferramenta que invade a privacidade das pessoas, é óbvio que algo semelhante ao escândalo Cambridge Analytica vai acontecer. Igual às garrafas. O que pensavam que significa “Anal” em “Analytica”?
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