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Que oportunidades tem um adolescente que nasceu na favela? – 04/11/2025 – Joanna Moura

Em 1990, Xuxa lançou a música que viraria o mantra de toda uma geração:

Tudo pode ser

Se quiser, será

Sonhos sempre vêm pra quem sonhar

Tudo pode ser

basta acreditar

Tudo que tiver que ser, será

Até hoje, só de evocar a lembrança da canção, me pego entoando seus versos, de olhos fechados, acreditando piamente nas palavras da Rainha dos Baixinhos: tudo pode ser. Será?

Do sonho de cristal para a realidade do noticiário. Na semana passada, uma megaoperação policial nos complexos da Penha e do Alemão resultou na morte de mais de uma centena de pessoas. Foi o maior massacre da história do Rio de Janeiro. Entre os mortos, a maioria era do sexo masculino, com idades entre 14 e 55 anos.

Na esteira do ocorrido, a opinião pública se dividiu. De um lado do espectro, muita gente denunciou os assassinatos, ecoando o choro e a revolta das mães que estamparam as capas dos jornais enquanto velavam os corpos de seus filhos em praça pública.

Do outro, pseudoespecialistas em segurança pública correram para aplaudir o feito do governador, engrossando o coro de que a operação havia sido um sucesso. “Se estava lá é porque era bandido. E se era bandido, é porque escolheu ser bandido.”

Escolheu ser bandido. Escolheu. Será?

Num vídeo publicado no perfil Protocolo Eu te Vejo, no Instagram, a juíza Vanessa Cavalieri, da Vara da Infância e Adolescência do Rio de Janeiro, falou sobre as razões que levam jovens a entrarem para o tráfico de drogas. Entre os principais motivos elencados por Cavalieri está a péssima qualidade do ensino público. Escolas que formam analfabetos funcionais, jovens que saem da escola sem saber nem sequer compreender um texto.

Mas onde o Estado falha, o capitalismo, não. Enquanto a educação não educa, a sociedade ensina a desejar o que não se tem. Enquanto o governo abandona a população à própria sorte, a teoria da prosperidade diz que é preciso ter ambição. Sentados em suas mansões de luxo, coaches proclamam que se é o que se tem. A roupa que você usa, o tênis que calça, o carro que dirige dizem ao mundo o valor que você tem. Em seus discursos, pregam que a única vida que vale a pena ser vivida é aquela da abundância —de dinheiro, é claro. E, por óbvio, chegar lá só depende de você. Da sua força de vontade. Da sua disciplina. Afinal, tudo pode ser. Será?

Volto às estatísticas e me pergunto: entre o desejo de prosperidade e o vácuo do Estado, que chance tem um adolescente que nasceu na favela de alcançar essa prosperidade que pregam?

Entre o sonho e a realidade aparecem outras alternativas para “chegar lá”. Para uns, elas vêm na forma da promessa de enriquecimento rápido das bets; para outros, pelo ingresso no crime. Ambos os caminhos com consequências desastrosas.

Pablo Marçal, o pseudoguru da neoprosperidade, disse certa vez, em uma palestra, que “o lugar onde você mora pode estar te impedindo de prosperar”. O raciocínio que o levou a proferir a frase, de tão esdrúxulo, nem vale a pena ser mencionado aqui. E embora isso me exija um esforço tremendo, me vejo obrigada a concordar com o coach: dependendo de onde se nasce, não basta só acreditar. A bala muitas vezes chega antes do sonho.


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