Sexta-feira à noite no Theatro Municipal. Membros da Ópera de Paris apresentam trechos de “Carmen”, obra de George Bizet em que uma cigana se apaixona por um soldado. Eram as mesmas notas e letras em francês que parisienses ouviram na estreia do espetáculo, em 1875.
Mas a apresentação paulistana trazia uma novidade. Dois cantores do grupo eram brasileiros: o barítono Luis-Felipe Sousa e a soprano Lorena Pires, descendente de quilombolas do sul da Bahia. Um elenco de excelência que seria improvável há 150 anos.
Entre tradição e renovação, a casa centenária foi eleita o melhor teatro lírico de São Paulo pela segunda vez pelo júri da Folha.
De acordo com Andrea Caruso Saturnino, superintendente geral da instituição, o Municipal tem buscado uma harmonia com os tempos de hoje. Na prática, significa aumentar a participação de grupos com menos espaço em óperas. Foi o que aconteceu em “O Guarani”, do brasileiro Carlos Gomes, apresentada em janeiro. A montagem manteve a história original sobre o amor entre um indígena e uma mulher de origem portuguesa, mas ganhou perspectiva nova, com o ativista Ailton Krenak na concepção.
Além de trazer indígenas para o elenco e para a direção, a produção mudou aspectos do protagonista Peri, que ganhou um povo específico, os guarani do Jaraguá. “É ilusão tentar montar uma obra exatamente como era há 200 anos, pois os corpos, as mentes e o público mudaram”, afirma Andrea.
Outra montagem que vai receber versão do presente é “Les Indes Galantes”, do francês Jean-Philippe Rameau. Criada há quase 300 anos, a ópera retrata povos considerados exóticos pelos europeus na época. Na versão do Municipal que estreia em novembro, a coreografia é assinada por Bintou Dembélé, do Senegal. A artista criou movimentos que misturam música barroca à dança urbana.
A programação do Municipal de 2025 também trouxe óperas mais recentes. É o caso de “Porgy and Bess”, do americano George Gershwin dos anos 1930. Foi a primeira produção própria do teatro sobre a obra —em 1990 recebeu uma montagem itinerante, que veio pronta a São Paulo.
Uma das exigências para obter os direitos da obra de Gershwin era ter elenco só com pessoas negras. O pedido não se estende às equipes de produção, mas o Municipal resolveu montar a ópera com direção artística majoritariamente negra, encabeçada pela diretora Grace Passô.
“Uma das solistas da montagem contou que nunca tinha sido dirigida por uma mulher em outras montagens de ‘Porgy’”, lembra Andrea. “Ela se emocionou e disse que toda a perspectiva da ópera foi diferente por isso.”
Misturar títulos antigos e novos é também estratégia do Municipal para 2026. A nova temporada será aberta em fevereiro com a ópera “O Amor das Três Laranjas”, de Sergei Prokofiev, narrativa surrealista sobre um rei que quer curar a melancolia do seu filho.
“Fugir da repetição de títulos mais conhecidos é jeito de manter a ópera relevante no século 21”, diz Andrea. “Mas sem abrir mão da excelência.”
THEATRO MUNICIPAL
Praça Ramos de Azevedo, s/n, República, região central, tel. (11) 3367-7200. theatromunicipal.org.br



